
Dos arquivos do Obá Oriaté Miguel
“Willie” Ramos, Ilarí Obá
Traduzido por Ricardo Ferreira do Amaral, advogado, artista plástico e filho de Airá
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deste documento poderá ser reproduzida para qualquer finalidade,
sem o expresso
consentimento por escrito do autor.
Entre os Lukumi, Olokún é o
orixá dos oceanos, donde toda vida se originou, e o zelador das suas riquezas e
mistérios.[1]
Como o oceano que oculta incontáveis mistérios, esta divindade é considerada um
dos mais desconcertantes orixás do panteão Lukumi. Um provérbio
do odu Irossun—o principal odu do dilogun em que Olokún se
manifesta—enuncia que “ninguém sabe o que descansa no fundo do mar”. Por
extensão, nenhum ser humano poderá alguma vez compreender verdadeiramente a
magnitude e a força vigorosa desta misteriosa divindade.
Não há consenso quanto ao sexo de Olokún.
Em algumas áreas da África Ocidental, Olokún é considerado masculino, ao passo
que em outras é feminino. Esta controvérsia também chegou a Cuba. Em muitos pataki,
Olokún é descrito como um rei em um palácio subaquático e com muitas esposas.
Várias qualidades de Yemojá, Ajé Shaluga e de Oshun são
todas consideradas mulheres de Olokún. E
ainda, o renomado etnólogo cubano Fernando Ortíz cai nesta ambivalência quando
descreve Olokún, tanto como “Senhor do Oceano” quanto uma “deusa” no mesmo
parágrafo e na mesma página.[2]
Hoje em dia, tanto os Babalawôs, quanto os olorixás letrados, expostos
à recente e massiva disponibilidade de literatura de antropólogos e outros
estudiosos da cultura ioruba, insistem em que Olokún é masculino. Alguns
olorixás insistem em que Olokún é assexuado, hermafrodita ou andrógino. Não obstante, as linhagens cubanas donde as
principais tradições a respeito de Olokún se originaram, sustentam obstinadamente
que este orixá é feminino. Esta controvérsia também se reflete nos
cantos para Olokún e nos rituais associados com sua consagração.
A despeito da caridade geral e da
boa natureza de Olokún, este orixá é uma força a ser temida quando
contrariada. Um número de patakis se refere à ira de Olokún. Em um destes mitos, narrado no odu Ejiogbé
Odi, descreve a insatisfação deste orixá com a maneira em que Olorun
distribuiu os domínios entre os orixás. O argumento era que, desde que
foi consignado a Olokún governar sobre os oceanos, e estes formam a maior parte
do planeta, Olokún era mais poderoso que Olorun e assim era o Ser
Supremo. Para demonstrá-lo, os oceanos começaram a criar ondas irrefreáveis e
ominosas que tratavam de afogar a Terra e seus habitantes.
Olokún tem se tornado um orixá
tão popular, que hoje mora em muitos ilês. Esta expansão tem causado
certo dano muito lamentável ao orixá, notadamente a causa dos olorixás
mecanizados de hoje, que não brindam aos seus omós o conselho necessário
sobre a maneira apropriada de cuidarem de Olokún.
Uma
vez que um indivíduo tenha recebido a Olokún, muitos aspectos de seu
comportamento deverão ser adaptados ou mudados. Em princípio, Olokún deve ser
mantido numa área da casa onde haja pouco tráfego, preferentemente dentro de
uma vitrine, se é que o indivíduo não possui um quarto em separado para os orixás. Olokún deve estar coberto. Oshabí
tinha preferência pela roupa branca, ainda que alguns olorixás, que receberam Olokún
através dela, insistam em que a mesma lhes tenha dito que cubram Olokún com um
manto feito de tiras ou tecidos de diferentes cores. Em ambos os casos, Olokún deve ter também uma
cortina de mariwô precedendo o lugar onde seus paramentos são mantidos,
ou posta diretamente sobre o vaso do assentamento. Em caso algum Olokún deverá
se tornar um ornamento na sala-de-estar de alguém, como muitas vezes é o caso!
Está proibido permanecer diante de
Olokún inapropriadamente vestido ou trajando roupas pretas, havendo uma exceção:
durante um ebó do odu Ejiogbé meji. Nunca alguém deve se dirigir
a Olokún em roupas íntimas ou que deixem o corpo exposto. Ademais, devemos
estar seguros de estarmos ritualmente “limpos” antes de nos dirigirmos a este orixá.
Do mesmo modo, praguejar e usar linguagem de baixo calão são ofensivos para
este orixá.
A água de Olokún deverá ser
trocada uma vez ao ano. É importante recordar que não devemos fixar a vista
diretamente dentro do vaso de Olokún imediatamente depois de tê-lo
descoberto. A água antiga pode ser despachada na entrada da nossa casa ou ser
usada para o banho. Muita gente usa a água de Olokún como remédio,
especialmente para aliviar febres muito altas, passando um pano que tenha sido
submerso na água, pelo corpo do indivíduo afetado. Se ao trocar a água,
notarmos que as ferramentas necessitam de limpeza, então devemos proceder
cuidadosamente no quarto da seguinte maneira, preferentemente isolados. O
conteúdo deve ser esvaziado em uma bacia limpa e bem lavada com água fria. O
vaso também deve ser lavado por dentro e por fora. Uma vez que isto tenha sido
feito, as ferramentas são recolocadas dentro do vaso. Olokún nunca poderá ser
lavado dentro da pia de lavar louça, como muitas vezes tenho visto, nem deve
ser limpo na frente daqueles que não são iniciados em seu culto.
Alguns esclarecimentos adicionais
necessitam ser feitos aqui. Recentemente, mais e mais olorixás têm consagrado Olokún
em conjunção com ordenações. Este é um erro grave, eis que as cerimônias de Olokún
devem ser realizadas numa atmosfera mais serena e não podem ser levadas a cabo
em conjunção com este ou outros orixás. Se por alguma razão o iyawô
tenha que receber a Olokún—e, surpreendentemente, não o tenha feito até
então—este lhe deverá ser entregue antes da ordenação, mesmo que isto requeira
sua consagração na véspera da cerimônia.
Outro item é o cesto com oferendas
que é preparado durante a consagração de Olokún. Esta cerimônia é denominada por muitos como agbán—cesto,
ainda que o termo seja usado para se referir ao ritual realizado para Olokún e
a um similar para Babaluaiyé.
Depois do falecimento de Oshabí, muitos olorixás preguiçosos
começaram a usar alimentos crus e frutas para o agbán, ao invés das
tradicionais comidas cozidas que Oshabí e Obá Tero ofereciam a Olokún. Este costume se tornou especialmente popular
em La Habana e foi levado ao Estados Unidos como uma tradição. Em realidade, o agbán
de Olokún deve ser feito com ekó, ekuru arô, akará e semelhantes, e não
com tubérculos crus, feijões e carnes sem cozinhar, e assim por diante. Tenho
visto massas, flocos de milho (corn flakes) e guloseimas em pratos para
um agbán para Olokún! Oshabí teria considerado isto uma heresia!
Dentro da mesma tessitura, deve se
frisar que o agbán de Olokún não é uma cerimônia de limpeza. Pelo
contrário, é uma oferenda. O devoto que tenha Olokún consagrado para si, envia
este agbán para Olokún como uma oferenda grandiosa, muito similar às
caravanas de agbán enviadas pelos estados subjugados ao palácio de Oyó
na antiga Iorubalândia. O agbán é
uma oferenda simbólica, rogando a Olokún de tal modo que o indivíduo sempre
venha a ter uma peça de roupa com que cobrir o seu corpo, um prato de comida na
mesa, um fogão onde cozinhar e um teto sobre a sua cabeça. A pessoa que recebe Olokún
não deve ser limpa, nem ninguém presente na cerimônia, com o conteúdo dos
pratos, tal como é feito cada vez mais e mais hoje em dias. Isto é feito
somente no caso do agbán de Babaluaiyé e alguns outros ebós usualmente
feitos para Elegbá. Os pratos são colocados ao redor do cesto e deixados
ali para repousarem por algum tempo. Depois disto, são apresentados ao
indivíduo e as oferendas são depositadas dentro do cesto.
As oferendas para Olokún são
levadas ao oceano. Ao receber o orixá, a pessoa responsável para levar o
agbán ao mar é o indivíduo que o recebeu, eis que se trata de uma
oferenda que esta pessoa realizou para Olokún, e um sinal de devoção e
louvação. E ainda, o olorixá está obrigado a instruir o omó receptor
sobre como apresentar esta oferenda apropriadamente, de maneira que isto não
seja ofensivo para outrem. Muitas vezes esquecemos que vivemos numa sociedade
muito heterogênea e especialmente num país centrado no cristianismo, onde
muitos dos nossos co-cidadãos vêem uma religião africana como um câncer
repugnante e deplorável que deve ser extirpado.
A maneira de se entregar
apropriadamente um ebó e um adimu são um caminho do qual, como
comunidade religiosa, ainda temos muito que percorrer. As sacolas de plástico
que usamos para cobrir nossos cestos, evitando assim que se sujem, não formam
parte da oferenda e não pertencem ao mar, como para que sujemos a água e
danifiquemos o nosso meio ambiente. Tampouco às garrafas de vidro ou às taças
de plástico que uma vez contiveram mel ou melado de cana, ou aos pedaços de obi
que são lançados em nossas cerimônias, lhes compete flutuar na água ou jazer no
fundo do mar. Nem Olokún, nem qualquer outro orixá poderão ser agradados
pela nossa falta de senso comum e sensibilidade.
Quando o oceano não estiver à disposição,
como é o caso de localidades como Jovellanos, em Cuba,[3]
e de cidades como Chicago, nos E.E.U.U., então o lago, o rio ou o canal poderão
substitui-lo. Olokún é a divindade dos
oceanos, mas por extensão, também é o orixá de todas as águas. Um dos
aspectos mais belos da nossa tradição religiosa é a habilidade de nos adaptar
quando tratamos com obstáculos intransponíveis.
Os adimus—oferendas de comida—
preferidos de Olokún são porco frito e tiras de bananas verdes fritas. Em
adição, Olokún gosta de akará—bolos fritos de feijão fradinho, de ekuru
arô—um tipo de pão de forma, feito de feijão fradinho cozido ao bafo dentro
de folhas de bananeira, egbojá—um prato feito com milho moído, porco
e/ou camarões secos, peixe defumado
coberto com molho de tomate e cebola ou com um molho verde feito com salsinha e
outros condimentos; melancias e melões de todo tipo, uvas vermelhas, melado de
cana, côco grelhado com melado de cana e canela, gofio—bolas de milho
torrado ou de farinha de trigo com melado de cana e canela ou mel e boniatillo—um
tipo de pudim feito com batatas doces brancas. Pode haver outras variantes
regionais que tenham sido adaptadas com o tempo.[4]
[1] Lukumi é a
primeira designação pela qual o povo ioruba foi conhecido pelos estrangeiros,
antes da adoção do termo Ioruba no século XIX. Lukumi (lucumí) é o termo aceito
em Cuba. Através do texto, tenho utilizado o termo “Ioruba” para me referir
tanto aos iorubas no continente africano, quanto de forma generalizada para as
Américas. “Lukumis” teria sido utilizado para se referir especificamente à Cuba
e aos primeiros registros coloniais nas Américas, que a eles se referem desta maneira,
e à migração posterior a 1959 de olorixás cubanos para regiões das Américas e
da Europa, onde a religião deitou novas raízes.
[2] Ortíz,
Fernando. Los bailes y el Teatro de los Negros en el Folklore de Cuba (La
Habana: Editorial Letras Cubanas, 1981) 452.
[3] Cabrera,
Lyfia. La Laguna Sagrada de San Joaquín, 2ª ed. (Miami, Ediciones
Universal, 1993) 11.
[4] Para
saber mais sobre os adimus de Olokún, vide Ramos, Miguel W. Adimu:
Gbogbô Tén’unjé Lukumí (Miami, Eleda Publications, 2003).